05 Junho, 2009

AGORA QUE O DEPOIS NÃO
FOI E O ANTES AINDA É


"Anda sobre as águas. Esse século é como o mar. Está cheio de amargor, de um amargo nocivo. Anda, pisa com os pés esse século perverso. Anda sobre o mar, a fim de não seres engolido por ele."

Agostinho de Hipona

27 Maio, 2009

MATCH POINT
Ensinar é movimentar uma usina
para acender uma vela.


Frase ouvida em sala de aula nos tempos em que todo homem, por natureza, desejava conhecer.


" [...] o que se pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto."

Erico Veríssimo

12 Maio, 2009

O CAMINHO SEM RASTROS










Ao reconhecer algo como belo

Já se pressupõe a feiúra
Ao tomar consciência do bem
Criamos o mal.

Ser e não-ser se confundem
E se geram mutuamente
Fácil e difícil se complementam
O longo e o curto se definem um ao outro
Alto e baixo convivem
Som e silêncio formam harmonias
Anverso e reverso coincidem
O antes e o depois se seguem e se sucedem
Por isso o caminhante conhece
Sem afirmações categóricas

Permanece na ação sem agir
E lança ensinamentos sem palavras.

As diferentes coisas
Operam sem serem impedidas
Nascem sem serem possuídas
Atuam sem serem dominadas
Mas o que segue o caminho
Não descuida delas
Produz mas não reclama posse
Realiza e não se vangloria dos resultados
Alcança objetivos sem reivindicar créditos
Por não almejar mérito
Este não o abandona
Terminada sua obra
Está sempre no princípio
E por isso prospera.

Laozi. Dao De Jing. Tradução livre e indireta via edição javanesa.

04 Maio, 2009

CAMINHANDO
Andar, a arte da progressão colocando um pé metodicamente adiante do outro, é o meio de locomoção mais venerável e universal da humanidade e o tem sido durante um milhão de anos. Andar no sentido mais nobre é um processo regular inspirado pelos bosques e pelas colinas, por rios e pelas flores do campo, uma fruição serena das eternas fontes de alegria. Andar leva à meditação. Ou talvez se devesse dizer que só aqueles de espírito filosófico andam, verdadeiramente, receptivos à beleza que está por toda parte na natureza não poluída pelo homem.

O texto acima encontra-se na Enciclopédia Britânica, verbete to walk. Tradução de Roberto Muggiati.

26 Abril, 2009

UM TOQUE DE ADEUS

Corpo Letárgico

Composição: Manoel Tchembo / Michel Aranalde

O corpo letárgico revela
A alma litúrgica que vela
Tua mente lisérgica
E nela o amor letal

Jogo poemas dadas nos lados de um dado
Jogo poemas concretos de ponte de safena
Mas é jogo perdido apostar num coração desperdiçado,
Melhor a despedida ao despedaço

Palavras ao ar
Garrafas ao mar
Embebido em maresia mergulho em abstrações
O rosto na rede
O resto no anzol
O rastro no sal
Peço a um coral que cante por ti

Atiro de ostras balas de canhão
No inevitável naufrágio das ilusões

Disponível AQUI

UM TOQUE APAIXONADO

Conjunto Solução

Composição: Manoel Tchembo / Michel Aranalde

Entro no teu mundo pisando leve, como quem pisa um jardim
Mas os passos são de um elefante, num telhado feito de sonhos
Falo frases soltas como quem recita um poema
Mas as palavras não são amenas, mas de metralhadora,
No tiro ao alvo das intenções...

Sei que o melhor dos mundos possíveis neste infinito universo
Real, imaginário, direito e avesso do original, mundo sistema,
Que meu satélite percorre mistério poema, que me atrai e que me acolhe,
Me acolhe...

Lúdico, quero jogar o jogo com as regras que a gente inventar,
Sério, quero amar e rir desse caso sério até cansar
Lógico, quero ser seu, ô ô, lógico quero ser seu
Em qualquer interpretação quero ser seu, conjunto solução...

Só não me deixe sozinho neste universo infinito só e soluçando
fique perto de mim e me deixe ser o teu conjunto solução.

Disponivel AQUI

25 Abril, 2009

UM TOQUE ECOLÓGICO

Teu Céu Mental

Composição: Manoel Tchembo / Michel Aranalde

Sabiá que Bem-te-vi nos campos
Quero-quero queria cantar
Tu me Traíra, tu quis me Jundiá
Os rios são veios de sangue
Em minhas veias rios de vinho
Amar o mar tem gosto amargo
E da floresta nem flor resta
Vou ti jogar um verde
Se mentes és artificial
Semeias mentiras, és infrutífero
Erva daninha, fique longe bem looooooonge
Te quero verde, te quero maduro
Vou plantar bananeira no teu quintal
Te quero verde, te quero maduro
E despoluir o teu céu mental

Sabiá que Bem-te-vi nos campos
Quero-quero queria cantar
Tu me Traíra, tu quis me Jundiá
Os rios são veios de sangue
Em minhas veias rios de vinho
Amar o mar tem gosto amargo
E da floresta nem flor resta
Vou ti jogar um verde
Se mentes és artificial
Semeias mentiras, és infrutífero
Erva daninha, fique longe de mim

Te quero verde, te quero maduro
Vou plantar bananeira no teu quintal
Te quero verde, te quero maduro
E despoluir o teu céu mental

Disponível AQUI

"Não há muito a se esperar de uma nação quando sua cobertura vegetal chega ao fim, e ela se vê obrigada a fazer adubo dos ossos de seus antepassados."
Henry David Thoreau

17 Abril, 2009

OUVIR E FALAR

Ouvir a todos como se escutasse a cada um
Falar a cada um como se dissesse a todos.
.
.
"Para não ser mudo, deve-se começar por não ser surdo."
Eduardo Galeano

16 Abril, 2009

L
----A
--------R
-------------A
------------------N
----------------------J
--------------------------A
-------------------------------S
Após colher laranjas do céu
lançou ao espaço-a-passos perdidos
com inútil gravidade metódica
de forma lenta e gradual
um de cada vez por outra
os degraus de impossíveis escadas.

Pensou em laranjas de umbigo
quando gerou vácuo
entre os fios elé-tricôs
e o cordão da calçada nascimentada
trifásico desfez o caminho ao meio
de quebra fez a queda sem asavessas.

Feito laranja da terra
a certa altura rodopiou sobre tudo
em rota cega sobra nada
caiu duro em si mesmo
sucolento maduro
asfaltando pedaços.
.
.
.


26 Fevereiro, 2009

CANÇÕES DOS PIRATAS

Créditos: desenhos de Laerte, "Os Piratas do Tietê".

30 Janeiro, 2009

O PRIMEIRO AMOR















Definitivamente era um garoto estranho. Enquanto seus amigos jogavam futebol e devoravam nus de revistinhas sacanas ele idolatrava a capa daquele LP. Nunca se soube porque um disco chamado 'Eterno como Areia' havia aportado na estante da sala de jantar. Ainda mais porque seus pais nunca haviam escutado o disco. Ele havia se apaixonado pela foto de uma cantora chamada Diana Pequeno e cantava até a exaustão o indecifrável refrão de uma das músicas: "agora é que eu quero ver se couro de gente é pra queimar...". Sabe-se lá o que isso significava, mas não importava. O delírio era escutar a música olhando a foto de sua Deusa. Posso observá-lo neste exato momento separando a imensidade de discos e classificando por gênero ou cores, ou selos. O mesmo ele faz com os livros da gigantesca estante (quando o tempo passar a estante ficará menor, mas ele ainda não sabe disso). Separa os livros primeiro por tamanho, mas percebe que os mesmos autores não podem ficar juntos dessa forma. Então separa por autores e percebe que os assuntos são diferentes. Que confusão! Eu o observo curioso para saber o próximo passo. Ele não percebe minha presença. Parece que não estou lá, mas estou. Como é possível estar e não estar lá ao mesmo tempo, mas sob diferentes aspectos. A imagem do garoto começa e ficar desbotada, a estante também perde a cor, os discos começam a ficar menores e prateados, os livros amarelados e gastos. É melhor não pensar em conseqüências lógicas, pois como tudo na vida a lógica também tem os seus momentos e este é apenas o de observar o jovem entretido com seus discos e livros. Sim! São dele porque ele os lê e admira suas capas e ouve as canções e decora as letras. Hoje os LPs estão guardados por gênero: primeiro as cantoras por nome em ordem alfabética e depois os cantores. Já os livros estão organizados por cores começando dos claros para os mais escuros. Amanhã ele pensará em outra forma se guardar seus tesouros. Então, ele ri da sua vontade de burlar a ordem que criou: pega o LP da Diana Pequeno, dá um beijo na imagem da cantora, ruboriza e olha para os lados para ver se não foi flagrado por nenhum outro habitante da velha casa. Guarda o disco no início da grande pilha e sai correndo para o pátio para comer frutas maduras diretamente do generoso pé de caqui. Vou embora assobiando uma antiga canção "que alumiou toda terra e mar...". Definitivamente sou um cara muito esquisito.

25 Novembro, 2008

Comtemplários Ltda.
& Semtensas Idéias S. A.


“A maior fortuna do ser reflexivo consiste em indagar o indagável e reverenciar serenamente o que não se pode indagar”

Goethe

16 Novembro, 2008

Uma grande lição para os pequenos tiranos
ou porque a verdadeira revolução é a tomada de consciência












Uma grande revolução é como o rio da evolução transformado bruscamente em torrente que desemboca em cascata, fora do controle de seus navegantes. Nele se perdem ou morrem quase todos, e com as mudanças de condições sendo alteradas, o trabalho realizado é levado sempre mais à frente por seus sucessores. Aqueles que conseguem sobreviver numa época revolucionária perecem igualmente ou são transformados, de sorte que, após a tormenta, quase ninguém consegue influir na nova evolução de modo ativo e salutar. Em outros termos, a revolução, assim como a guerra, destrói, consome ou muda os homens, fazendo deles déspotas independente de qual tenha sido sua posição precedente, e torna-os pouco aptos, depois de tais experiências, a defender a liberdade.


MAX NETTLAU

10 Novembro, 2008

NO-WORDS, NOWORDS
NO-ORDER, NEWORDER












"Um poema é uma construção literária composta por 'não-palavras' que, tomando distância do sentido, alcançam por meio da prosódia um sentido além-do-sentido. Não se sabe qual é o fim de um poema."

Karl Shapiro
SURPRESA 2
































04 Novembro, 2008

SIM OU NÃO

Dizia sempre a fatídica palavra não importando a circunstância. Era um hábito adquirido, mas houvera um tempo em que simplesmente não dizia nada. Apenas ouvia sem compreender direito como tantos sons podiam carecer de significado. Ainda criança, quando morreu de desgosto pela primeira vez, resolveu concordar com o nonsense. No início a emitiu como um engasgo, mas depois acostumou e seguiu dizendo. Escravizou-se como mero serviçal da insensatez. Fazendo favores estúpidos e agradecendo estupidamente, juntando trastes inúteis, carregando sacolas de pecados alheios, sendo garoto de recados, servindo de bucha de canhão, e/ou isca de tubarão e/ou boi de piranha. Um dia um amigo perguntou se ele não conhecia aquela palavra com três letrinhas. Ele sorriu e respondeu: SIM! Entretanto, o que realmente modificou sua atitude foi o encontro com o Sr. Bartleby. A partir daí achou melhor não dizer mais. "Acho melhor não fazer" tornou-se um lema...e tinha sentido e significado!!! Por quê? Acho melhor não dizer...

01 Novembro, 2008


Não sei bem em que momento
o coração da maçã amadureceu
guardado na garagem
entre velhas folhadas de jornal
migalhas de notícias adormecidas
esperando a derradeira viagem
a lição sabia de cor
mudou de cor
corou a verdejante vergonha
de sair ao mundo exterior
rubra coragem de agir
como mão-de-obra
mostrar-se vazio
sugar a seiva
presença de ausências
amou tarde
endureceu
sementes encapsuladas
em venenosa quantidade
brotaram via acessos de fúria e som
explodiram figos nas doze badaladas
baladas do baleado homem-bomba
sem relógio
tempo de se mear
se recolher
maçãntes horas sidrosas
lavoura mecanizada
macieiras arcaicas
plástifruticas tutti cítricas
caixões e caixotes de segunda à sexta
feira de inutilidades
em pleno outônico
estacionamentos proibidos
numa manhã geada
as estradas engarrafaram sucos
caminhões de mudança
congestionaram pontes de safena
abriram-se novos caminhos
atalhos para enciclopédias recicladas

ciclovias para cíclopes em vias de extinção
pontos cegos no espelho
o trem-bala segue célere
a-celerado saindo dos trilhos
atropelando trevos de quatro folhas
rumo ao coração das trevas
onde repousa a verdadeira maçã verde.


22 Outubro, 2008

SURPRESA

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21 Outubro, 2008

OS NASCENTES E O SOL











Circulação de sol condicionado
queima o peito, acanha
girassolar a dor febril
vapor arde o ar de vento quente
transbordam os seres liquidados
automotores abortam seus destinos
heterônomos fora-da-lei
lei-de-quem-faz-as-leis
lei-de-quem-não-escreveu-nem-leu
clandestinos a bordo da nau em chamas
cada um com seu canto
das sereias
cada qual no seu canto
com as sirenes
ventilador transforma calor
assim assados
assinam
termo-da-vida-dinâmica
desmedidas e duvidosas dívidas

termômetro de pressão alta
mede o que não tem remendo
remenda o que não tem remédio
pulsa o que pulula
palpitantes, sobretudo
saltam uns sobre os outros
copulam, gerando cópias de papoulas
superpopulação de filhos do sol
cataventos inúteis ante o suor de sal
mar sem ondas, antenas desligadas
estômagos em brasa, abraços de mormaços
liga de aço, mistério, areia
vidro, cacos de vida
pró-fusão de mornos desejos
ninguém liga para a funda-mental tarefa:
dureza de amadurecer
em meio a amnésia popular
enriquece parcialmente a podridão ímpar
enrijece a carne na pobreza dos que esquecem
que a miséria está na mente dos que mentem
superfilhosdaputa
dizem que o sol nasceu pra todos
"amanha...amanhã de noite..."

fazem de tudo para retardar a tarde
enquanto esperamos
a geração de novos tempos
refrigerados.

16 Outubro, 2008

DOIS LADOS DO MURO















Num lado estava escrito:

muro pintado, povo calado.

No outro lado não estava escrito:
muro pichado, povo tagarela...e mal-educado.
ORÁCULO


Segundos antes de entrar pelo cano leu a seguinte inscrição na porta de um banheiro público:



Viver é bom....mas TODO DIA?

12 Outubro, 2008

CHATICE POUCA É BOBAGEM






CLIQUE






Fonte: Asttro.org
RATOS OBSOLETOS & MOUSES ÓTICOS


















Primeiro tentou atalhos

o caminho lhe pareceu longo e sem graça
demorou a chegar
por causa dos talhos nos pés
trocou os tênis de lona por um de couro
seus amigos trocaram 18 por 21 marchas
paciente, investiu numa bicicleta
limpou os aros, ajustou os freios
pura balaca seu grito de 'aiou silver!'
seus conhecidos já se locomoviam em automotores
speed racer em alta velocidade.

Escutava fitas cassetes
mas a turma escolhia LPs em lojas especializadas
trilhas sonoras de B-movies
garimpou discos em bique-a-braques
lixou as unhas recuperando sulcos arranhados
em plena febre dos MP3
quando o toca-discos entrou em sua casa
os CDs já circulavam em série
com as impressões digitais dos camaradas.

Escrevia poemas tortos na velha máquina elétrica
distoantes ruídos na cidade-teia de fibras óticas
avenidas de lugares comuns
praças passas passarás
engarrafamentos de fel&cidade
verborragias da inação consolativa
pedras verde-musgo-limo-limão
sua turma fazia ecoturismo
e publicava manuais de sobrevivência na selva.

Caiu na real e ergueu-se até a rede virtual
conexões infinitamente sem cabimento
ninhos de passarim em fios elétricos
neutralidade positiva
onde o choque negativiza
tecnologias enroladas em rolantes trilhas
tá ligado?
tá desligado!!!
Laptops wireless de última geração
eram utilizados pelos companheiros.

Viveu de bicos enquanto os outros estudavam
repetiu os mesmos erros antespassados
turma retardatária
estudou enquanto os outros trabalhavam
projetou sombra e água fresca
pois aprendera que o sol nasceu para todos
involuntária e fatalmente
estava frito
quando conseguiu uma profissão digna
sua geração já estava a meio caminho da aposentadoria.

Correu atrás do que sempre sonhou
correu atrás
correu
sonhou com bicicletas, CDs,
notebooks e contas bancárias
quando acordou já estava quase na hora de ir dormir
'que canseira' exclamou por último.


07 Outubro, 2008

CHÃO DE GIZ

VIDA PASSAGEIRA
ou da parada de ônibus que virou lar